COLEÇÃO EDITORA PESSOA FÍSICA PESSOA JURÍDICA

de Gabi Bresola
2017

Edições de textos, trabalho de artistas e proposições de autoras e autores sobre o processo editorial, conversas e histórias editoriais das pessoas que trabalham com isso e que as enxergam como uma atividade cotidiana, que não se separa da vida pessoal. Em cada publicação, a abordagem da atuação é pensada com linguagens diferentes, que incluem foto, performance, entrevista, relação com a internet sobre o que ou pode ser edição.

 

Para a criação desta coleção, o ponto de partida foi o trabalho de conclusão de curso da editora desta editora, que reuniu os primeiros títulos: Originais, Volumes e O que você faz quando faz ou pensa estar fazendo edição? e, depois, uma combinação de reunião de outros trabalhos já publicados, editora editora [1] (que só teve sua primeira edição nesta coleção, depois virou título independente) e editoras editoras, que nesta coleção ganharam uma nova roupagem editorial.

 

Todas as publicações desta coleção são editadas com materiais simples disponíveis papelarias e acabamentos comuns.

EDITORA EDITORA [1]

por Gabi Bresola

2018

 

Edição de luxo. No formato 21x29,7cm fechado, o livro tem 112 páginas com capa em papel branco em alta gramatura, estampada em fonte Arial, tradicional, e, bem grande, o título “editora editora”. Na lombada externa estão descritos títulos de publicações de artista em fonte bem pequena, aparentando uma textura se não forem vistos bem de perto. A lombada interna tem costura aparente, evidenciando as “vísceras” do livro e, de algum modo, seguindo a moda editorial da costura aparente que teve seu auge em 2018. Na segunda e terceira capa, uma malha preta impressa em cinza chumbo agrupa e sobrepõe dez mil vezes a palavra “miríade”, aludindo ao próprio significado em grego da palavra. O trabalho é um livro-catálogo que enumera, classifica e define de forma técnica (com devidas licenças poéticas) todas as publicações de artista que a miríade edições produziu no período de 2014 até 2019, tanto na prática quanto conceitualmente. A linguagem é desleixada e, em partes, enfadonha, realçando traços de tautologia e alterego desde os textos iniciais, em que tenta descrever a história da editora, relações de edição, diferenças de edição na editora tradicional e nas artes visuais, experiências e desventuras, até uma entrevista editada da editora em que se apropria de frases ditas em conversas, escritas em emeios, gravadas em entrevistas que fez, áudios de Whastapp, livros de entrevistas de/com editores/as, designers e artistas. Publicada com a colaboração editorial de Lívia Aquino, Raquel Stolf e Regina Melim, em dezembro de 2019, cumprindo o trabalho de instrução “autoinstrução” e finalizada durante uma banca de qualificação.

EDITORAS EDITORAS

por várias autoras

2019

 

Edição de luxo. No formato 21x29,7cm fechado, o livro tem 80 páginas com capa em papel Vergé em alta gramatura. O título, com a fonte Garamond, é sobreposto com os nomes das editoras convidadas. Cada nome com uma fonte diferente, eles ocupam graficamente a região da capa e parte da lombada. Na terceira e quarta capa estão descritos mais 500 títulos de publicações realizadas pelas editoras participantes do livro, em fonte bem pequena, que formam um único texto como uma malha de estampa. O conteúdo do livro é formado por conversas transcritas, realizadas entre 2010 e 2019 com editoras brasileiras, mas principalmente as atuantes em Santa Catarina: Eglê Malheiros, primeira editora mulher da primeira editora de livros de literatura e arte em Santa Catarina, na Edições Sul; Dorothée de Bruchard, professora, escritora e tradutora da editora Escritório do livro, que criou a coleção “Memórias”, trazendo depoimentos de “pessoas dos livros”; Zahidé Lupinacci Muzart, fundadora da Editora Mulheres nos anos 1990, publicando somente autoras e conteúdo ligado ao gênero; e Regina Melim, editora da plataforma par(ent)esis, a primeira plataforma de pesquisa e publicações de artista do estado.

VOLUMES

de Gabi Bresola

2016

 

Foto-livro formado por 25 imagens sangradas impressas em preto sobre papel reciclato no formato A6 e acabamento grampeado. Com capa em papelão e título em adesivo retangular branco Volumes é um texto que se lê em palavras que estão nas fotografias de um estoque de uma editora comercial. O exercício comum de quem trabalha em estoque de livros é de, a cada vez que abre uma caixa para retirar livros que vão para livrarias, ou para guardar os que foram devolvidos, escrever no lado externo das caixas os títulos e as quantidades contidas em cada volume. Desse modo, um estoque onde só se enxergam as caixas de papelão e se leem todos os seus conteúdos do lado de fora faz com que as estantes, caixa sobre caixa, caixa ao lado de caixa, formem uma parede de escritos, de sinalizações do que está contido por trás do papelão. As caixas foram fotografadas separadamente por Gabi Bresola e organizadas em uma sequência, a mesma da ordem de páginas deste livro para formar uma narrativa. O texto, se retirado das imagens, também pode ser lido como uma ordenação de títulos. A lista desses títulos aparece no final do livro com seus respectivos autores A produção deste livro de imagens com um texto camuflado surgiu, também, com a frase de Umberto Eco, que afirma que “todo texto é uma máquina preguiçosa pedindo ao leitor que faça sua parte”.

EMPILHAMENTO MÁXIMO

de Gabi Bresola

2016

Edição de livro planejado em outro livro, um livro de fotos: um caderno de imagens impressas no papel Markatto em uma gramatura de 120g/m², tornando um agrupamento de fotos que parecem plaquetes. Com encadernação espiral, em um envelope preto, não há capa, pois a proposição referencia a nota 66 do livro Notes, de Marcel Duchamp — livro com pequenas anotações sobre ideias de trabalhos, sobre as obras que estava produzindo, jogo de palavras e onde discorre sobre o conceito de inframince ou infraleve (possível tradução). A nota número 66, reproduzida a seguir, descreve o planejamento de um livro em uma época que não havia sido desenvolvida e difundida a encadernação simples e popular que é a espiral: “Para texto da Mariéenmise à nu, ou seja: fazer um livro redondo, sem começo nem fim (que as folhas sejam destacadas e colocadas em ordem para que a última palavra de cada folha repita na folha seguinte/páginas não numeradas). Que a lombada seja feita com espiral em torno da qual as páginas são viradas”. Empilhamento máximo faz com fotos a operação que ele supõe que fosse com palavras. São reproduzidas 20 imagens de registro de uma performance. Na primeira, um corpo feminino nu está disposto sobre o chão de um estoque de livros. Na direita, uma estante imensa com diversas caixas de papelão; no fundo da sala, as janelas com vidros bastante empoeirados, que impossibilitam enxergar o terreno baldio que há no quintal abandonado do lado de fora. Esta imagem se repete 20 vezes, e, em cada repetição, são adicionados livros nas costas do corpo no chão. Na imagem 17, os livros começam a desabar; na 18, só há imagem do vulto do movimento dos livros caindo; na 19, o corpo mesclado com os livros caídos; e, na 20, os livros caídos no chão sem o corpo. Como não há início nem fim, estas podem ser as imagens como iniciais. E, se as páginas forem folheadas rapidamente, o livro pode ser lido como flipbook.

ORIGINAIS

de Gabi Bresola e Fábio Brüggemann

2016

Publicação composta por dois livros agrupados em uma plaquete de papel sola cinza claro, 21x21cm. Um lado da plaquete está encadernada com espiral transparente em páginas sulfites brancas, impressas em preto, o livro “boca” de Fábio Brüggemann, do lado oposto o livro “encontro marcado” de Gabi Bresola. A encadernação permite que ambos os livros sejam lidos separadamente ou concomitante. Pois os dois conseguem ficar de costas ou se sobreporem, como se estivessem se abraçando. Esta referência gráfica é dos livros de Tomma Wember, que viveu a clássica história de ser invisibilizada em seu trabalho editorial e gráfico, fato que consta no texto Errata histórica, de Tina Merz. Os textos surgiram de uma proposição. Um casal de editores que se separa e não entende o porquê exatamente. Ao pensar que poderia ser por causa da experiência de ter uma editora em comum, os dois se propõem a escrever a mesma história: que iniciasse desde o momento em que se conheceram até a criação e extinção da editora. O texto deveria ser escrito em uma semana, sem que se comunicassem. Após o término, ambos trocariam os textos como se estivessem apresentando originais para uma editora, e se proporiam a fazer revisões (de caneta vermelha) no conteúdo do texto, tentando separar a ideia de que aquela literatura, que poderia ser ficcional, tratava de algo real. A publicação final expõe os dois textos com uma conversa em forma de revisões anotadas nas bordas e entrelinhas nas páginas. Como qualquer original revisado, as anotações apontam erros, ou supostos erros, e sugerem alterações no texto alheio, mas, neste caso, os editores colocam em risco a função do profissional em um limiar: como revisar tecnicamente algo tão subjetivo e pessoal? Não há indicações deste procedimento no colofão do livro, apenas a epígrafe de Borges: “Só os erros nos pertencem”.