COLEÇÃO MAIS UNS PASSOS

 

Livros morrem todos os dias era o título de uma trabalho de Telma Scherer. Ao perguntar sobre a morte dos livros, um longo diálogo se estendeu até o espaço do sebo entrar na conversa. Na visão da artista, o livro ali no sebo poderia estar morto, não pensando o contrário, mas revisando esta colocação, esta editora propôs um debate sobre a morte do livro. A conversa se deu na flamboiã - feira de publicações de artista, que ocorre anualmente em Florianópolis. A partir da conversa (disponível em vídeo no Youtube), gerada com o público e os editores presentes, surgiu a proposição de recriar livros que estavam em sebos da cidade. Movidos pelas referências do Sebo Encanto Radical, de Fabio Morais, e do texto Reprint: Appropriation (&) Literature, de Annette Gilbert, acabaram percorrendo sebos, selecionando livros para pensar em propostas de sobrevida e promover uma nova conversa aberta sobre apropriação de edições.

 

Nossa editora propôs repensar a clássica coleção Primeiros Passos, publicada pela Editora Brasiliense. Foram eleitos seis títulos, com assuntos que fazem parte do universo editorial e, para cada um deles, um artista foi convidado para trabalhar o conteúdo e a forma do livro original, respondendo com uma intervenção a pergunta: “O que é” de cada título.

 

O que é editora? foi respondido por Marcos Walickosky, O que é fanzine? por Beatriz Perini, O que é biblioteca? por Tina Merz, O que é literatura? por Fabio Morais, O que é leitura? por Lívia Aquino, O que é design? por Pedro Franz, ainda em processo de escrita e finalização.

O QUE É EDITORA?

por Marcos Walickosky

[a partir de "O que é editora?" de Wolfgang Kapp]

 

A intervenção de Marcos Walickosky foi baseada no procedimento de revisão. O artista já havia feito um trabalho semelhante, em 2016, reunindo títulos de romances populares de bancas de rua, bastante famosas dos anos 1990 e 2000, com histórias de casais heteronormativos. A ação era de trocar nomes das mulheres e de homens formando casais homossexuais, reeditando os textos. Neste título, a proposta aconteceu utilizando apenas uma caneta Bic azul sobre as páginas do próprio original. Em todas as vezes em que aparece a palavra “editor”, o artista incluiu a palavra “a”, realizando uma espécie de revisão de gênero da palavra e confundindo a ideia de editora substantivo e editora sujeito. A primeira edição foi entregue no dia 11 de abril de 2016, como presente de aniversário para a editora, embalado em uma página do jornal da seção do horóscopo, o pacote aludia tanto ao mês de aniversário e ao sol em áries, quanto a referência à editora Brasiliense, que nos anos 1980 pagava aos redatores de horóscopo do jornal Estadão para que indicassem livros da editora nas previsões diárias de cada signo. Este trabalho foi referência para originar esta coleção Mais uns passos, dois anos mais tarde.

O QUE É BIBLIOTECA?

por Tina Merz

[a partir de "O que é biblioteca?" de Luiz Milanesi]

 

Este trabalho aconteceu enquanto Tina Merz se dedicava a pensar os trabalhos e a trajetória que Cleber Teixeira, poeta e tipógrafo carioca, teve em Florianópolis. A casa de Cleber era um ponto de encontro para conversas, sobre livros, troca de livros, edição de livros e outras trocas culturais, e agora, está se tornando, de certa maneira, um centro cultural, desde 2015, quando sua companheira, Maria Elizabeth, criou um projeto com o objetivo de organizar a biblioteca com o acervo da casa. Uma pequena parte dos milhares de livros nas prateleiras foram impressos pela editora de Cleber Teixeira, a Noa Noa. Usando uma prensa tipográfica manual, mesmo modelo utilizado por Virginia Woolf, publicou 69 livros clássicos nacionais e internacionais. Tina foi uma das curadoras da exposição Editora Noa Noa e Cleber Teixeira: Poeta, cavaleiro sem cavalo e tipógrafo, que reuniu cartas, fotografias, livros editados e textos editados, e diversos objetos. Ao receber o livro O que é biblioteca? nesta proposta, respondeu com um trabalho em forma de documento timbrado contendo o seguinte texto: “Certificado, sobre a aquisição de uma ideia. O livro O que é biblioteca?, que se encontra, sob o número 000000, no acervo da Biblioteca Cleber Teixeira, e que ali permanecerá, de agora em diante também é parte do trabalho de Gabi Bresola, que deve ser compreendido no projeto editora editora. Florianópolis, 11 de junho de 2019”.

* essa compra de uma ideia, quem na verdade fez primeiro foi o Johannes Cladders, nessa mesma data, só que em 1975, com Braco Dimitrijevic.

O QUE É FANZINE?

por Beatriz Perini

[a partir de "O que é fanzine?" de Henrique Magalhães]

Como artista, designer e fazedora de zines, Beatriz utilizou o conceito do Fanzine na época, a partir de seu surgimento dentro do movimento punk, situando-o no Brasil, com a cena riot girl, das bandas feministas punk dos anos 1980 e 1990, que tinham a lógica do “faça você mesma”, difundida entre as pessoas do movimento através do conteúdo de zines que produziam. Foi a ascensão das mulheres ocupando os palcos, escrevendo músicas, textos, tocando instrumentos, compondo e editando. Ao mesmo tempo em que homens do movimento as boicotavam, chegando ao ponto de desligarem a energia elétrica e invadirem o palco durante shows que elas faziam. A intervenção de Bia nesta publicação foi a de apagar o espaço do texto de Henrique, deixando apenas algumas frases sobre zine, soltas como recorte de papel. Organizada em uma caixa transparente, a publicação contém: 1. a capa do livro original com as frases do livro recortadas e soltas. 2. papéis em branco e outros retalhos de diversos tipos de papéis, com diferentes dimensões, texturas e estampas de épocas distintas (papel jornal e de carta dos anos 1980, envelopes dos anos 1990, misturados com materiais contemporâneos, entre outros); e, 3. ferramentas de papelaria básica, suficientes para a criação de uma zine (pacotinho de cola, tesoura, fita colorida, canetas, etc). A mesma quantidade de objetos foi inserida em cada edição, porém, as estampas e cores são variáveis. Ainda, no interior da caixa, entre os papéis, há um pequeno texto da artista sobre a impossibilidade de definição de zine em que defende que, justamente pela infinidade de conceitos possíveis ao longo de cada década, com transformações nos modelos de cada grupo/movimento que se apropriou deste meio, qualquer tentativa de definir zine pode ser considerada abstrata; e que seria contraditório, uma vez que esta publicação traz o potencial de liberdade, autonomia e autoexpressão a partir da prática e da materialização. Os objetos disponibilizados na publicação, deste modo, permitem que ela possa ser lida propriamente como um conjunto de elementos da matéria sobre o assunto ou como uma incitação para que se produza um zine (faça você mesma).